Ferrari SF90 Stradale

1.000 cavalos à disposição na primeira Ferrari híbrida

 

Bem, antes que comecem a dizer que há um erro ali no título desta matéria, vamos esclarecer. A SF90 é considerada o primeiro híbrido de verdade da Ferrari. Alguns podem se lembrar da LaFerrari de 2014, que embarcava o sistema HY-KERS, derivado das pistas, que tinha como objetivo reduzir as emissões de CO2 utilizando energia recuperada através dos freios, mas era incapaz de mover o carro apenas com eletricidade. E a LaFerrari foi uma série especial, limitada a 499 unidades, ao passo que a SF90 entrará em larga produção, por isso ter o alumínio como material principal da construção de seu chassi e carroceria, em lugar da fibra de carbono, material mais ‘habitual’ em supercarros.

Com a SF90 Stradale, a Ferrari escreve um novo capítulo em sua história, ao lançar seu primeiro modelo PHEV (Plug-in Hybrid Electric Vehicle) de série. Como não poderia deixar de ser, é o extremo em todos os níveis e representa uma verdadeira mudança de paradigma. Números como 1.000 cv e relação peso-potência de 1,57 kg/cv e 390 kg de pressão aerodinâmica a 250 km/h, não apenas colocam o Ferrari SF90 Stradale no topo de seu segmento, mas também significam que um V8 passa a ser o modelo topo de linha pela primeira vez na história da marca.

O nome do carro é referência ao 90º aniversário de fundação da Scuderia Ferrari e o resultado é uma combinação fascinante das tecnologias mais avançadas desenvolvidas em Maranello, que se traduzem na demonstração perfeita de como a Ferrari faz a transição do conhecimento e das habilidades que adquire nas pistas, para seus carros de produção.

A SF90 Stradale tem um motor V8 biturbo que gera 780 cv, a maior potência dos oito cilindros da história da Ferrari. Os 220 cv restantes são entregues por três motores elétricos, um na traseira, conhecido como MGUK (Motor Generator Unit, Kinetic), localizado entre o motor e o novo câmbio de 8 marchas e dupla embreagem que atua no eixo traseiro, e mais dois dianteiros, que enviam torque às rodas da frente. A Ferrari cogitou a instalação de apenas um motor elétrico dianteiro, porém, mesmo adicionando peso ao conjunto, preferiu duas unidades, uma para cada roda, que trabalham como vetorizadores de torque, ajudando no equilíbrio e estabilidade da SF90. Este sofisticado sistema não torna a condução complicada, ao contrário, o motorista simplesmente seleciona um dos quatro programas de condução e se delicia ao volante. A sofisticada eletrônica do carro cuida do resto, gerenciando o fluxo de energia entre o V8, os motores elétricos e as baterias.

Ah, e por falar em câmbio, além deste aqui ser mais leve, compacto e baixar o centro de gravidade, não tem marcha a ré. Para manobrar o carro, entra em ação o motor elétrico. Baterias esgotadas? Aí o V8 assume, dá uma carguinha e o carro se move para trás.

Com esta arquitetura, a SF90 é a primeira Ferrari com tração integral, necessária para lidar com a incrível potência somada do conjunto propulsor. O resultado é fantástico: 0 a 100 km/h em apenas 2.5 s e pasme, 0 a 200 km/h em 6.7 segundos. Porém, toda essa parafernália cobra um preço, o peso. A Ferrari anuncia 1.570 kg, parece pouco, mas em termos de comparação, uma F8 não híbrida e apenas com tração traseira pesa 1.330 kg. E estes 1.570 kg são medidos sem os líquidos. Pode contar com 1.700 kg, o que a coloca como a mais pesada Ferrari de todos os tempos. Só que ela é mais rápida na pista de testes da fábrica em Fiorano, do que a mais leve.

Outra grande inovação é o volante, que agora possui um ‘touchpad’ e uma série de botões táteis que permitem ao motorista controlar praticamente todos os sistemas do carro usando apenas os polegares. O painel de instrumentos central agora é totalmente digital com a primeira aplicação automotiva de uma tela HD curvada de 16″, que pode ser totalmente configurada e controlada através do volante.

Pela primeira vez em uma Ferrari, os clientes podem escolher, no lançamento, o carro padrão ou uma versão ainda mais esportiva. A especificação Assetto Fiorano inclui atualizações significativas, como amortecedores Multimatic – fornecedor da equipe de F1 – e várias partes em fibra de carbono, como painéis das portas e assoalho. Escapamento e molas em titânio são exclusivos da versão Assetto e cortam 30 kg de peso. Outra diferença é o spoiler traseiro de fibra de carbono que gera 390 kg de pressão a 250 km/h. A Assetto Fiorano vem com pneus Michelin Pilot Sport Cup2 de alta aderência, com composto macio e menos ranhuras do que os pneus standard.

MOTORES

O V8 da SF90 é baseado no biturbo F154 da F8. A capacidade subiu de 3.9 para 4.0 litros, graças ao aumento do diâmetro dos cilindros. Novos cabeçotes com válvulas de admissão maiores, um injetor central e injeção direta de alta pressão geraram mais uns cavalinhos. O fluxo de gases foi melhorado com o reposicionamento dos turbocompressores – que agora têm válvulas de alívio eletrônicas – e elevação dos escapamentos. A F8 conta com respeitáveis 710 cv, mas na SF90 foi a 780 cv, mais 81,5 kgfm de torque. E isso antes de somar os três motores elétricos.

O motor de combustão interna e os motores elétricos trabalham em sinergia para liberar os anunciados 1.000 cv, mas poderia ser mais, pois há uma equação intrincada envolvida aqui. A Ferrari anuncia 133 cv e 8,7 kgfm para cada motor dianteiro e 201 cv/27 kgfm para o elétrico traseiro. Mas não publicam os números somados. Enquanto a combinação teórica seria bem maior, há a limitação das baterias, que forçam o resultado nominal de 220 cv gerados no sistema híbrido.

PROGRAMAS

Graças a um seletor adicional montado no volante, denominado eManettino (versão moderna do Manettino tradicional), o motorista pode escolher entre quatro modos diferentes de gerenciamento da unidade de potência:

eDrive: O motor de combustão interna permanece desligado e a tração é apenas dianteira. Autonomia de até 25 km apenas com eletricidade. Ideal para centros urbanos, zonas de restrição e para não incomodar os vizinhos.

Hybrid: Configuração padrão quando o carro é ligado, com os fluxos de potência gerenciados para otimizar a eficiência geral do sistema. O módulo eletrônico decide se liga ou não o motor a combustão.

Performance: Ao contrário de Hybrid, este modo prioriza a carga das baterias. Isso garante respostas instantâneas quando necessário. É o programa mais adequado para situações em que o prazer de dirigir e a diversão ao volante são o foco principal.

Qualify: Permite que o sistema atinja a potência máxima, com os motores elétricos entregando tudo o que podem. A eletrônica prioriza o desempenho em detrimento ao carregamento da bateria.

Uma Ferrari híbrida? Muita gente torce o nariz para este tipo de novidade. Queiram ou não, além de ser a primeira Ferrari com tração integral, poucos se deram conta que é a primeira também com tração dianteira! Sim, em modo eDrive apenas as rodas dianteiras tracionam.

Mas não há motivos para discussões. A maior surpresa mesmo da SF90 é a amplitude impressionante de suas capacidades. A melhor coisa dela – há várias – é que as habilidades do carro aparecem sem cobrar o preço de cortar seu envolvimento e diversão com ele. Goste deles ou não, os supercarros híbridos são o futuro. E se eles forem bonitos e se comportarem como a SF90, não gastaremos muito tempo relembrando do passado.