O retrocesso do setor automotivo em 2020

Vendas de carros sofrem recuo de 26% e retomada será lenta

“Nunca foi tão difícil projetar os resultados de um ano. Temos uma neblina à frente desde março, quando começou a pandemia.” Dessa forma, como se estivesse caminhando no escuro próximo de um abismo, o presidente da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), Luiz Carlos Moraes, definiu como foi 2020 para o setor.

E seguiu tocando a trombeta do apocalipse: “A imunização pela vacina será um processo demorado, que tomará todo o ano de 2021, impedindo a retomada mais rápida da economia. Além disso, a pressão de custos, as necessidades urgentes de reformas e as surpresas desagradáveis como o aumento do ICMS paulista criaram um quadro que exige muita cautela nas previsões”.

A pandemia interrompeu um ciclo de três anos de recuperação após a crise de 2015/2016, embora dezembro tenha sido o melhor mês de vendas do ano, com 243.967 unidades — média diária de 11.600 emplacamentos. Na comparação com 2019, porém, todos os meses – exceto fevereiro – registraram queda nos licenciamentos.

“No fim do ano, a indústria fez um grande esforço para atender a demanda, trabalhando aos finais de semana e suspendendo parte das férias coletivas dos funcionários. Mas ela entra em 2021 com os estoques mais baixos de sua história, suficientes apenas para 12 dias de vendas”, diz Moraes.

A soma das vendas de 2020, um ano para ser esquecido, apresentou recuou acentuado, mas não tão drásticas como se anunciava no início da pandemia. Segundo a Anfavea, o cenário só não foi pior porque a injeção de recursos emergenciais na economia e a força do agronegócio ajudaram a amenizar as perdas do segundo trimestre, quando fábricas e concessionárias suspenderam suas atividades. As vendas fecharam com 2.058.437 unidades (queda de 26,2%), patamar equivalente ao de 2016, auge do último tombo econômico no país.

Já a produção de 2.014.055 veículos encolheu 31,6%, provocando ociosidade técnica de quase três milhões de unidades na indústria automotiva. As exportações de 324.330 de automóveis foram as piores desde 2002, ou seja, um retrocesso de quase duas décadas. A receita de US$ 7,4 bilhões foi menos da metade do que se exportou em 2017 (US$ 15,9 bilhões), no início da retomada da economia.

As estimativas da Anfavea para 2021 apontam para o aumento de 15% no licenciamento de veículos, 9% nas exportações e 25% na produção, índices insuficientes para a retomada a patamares de 2019. A recuperação agora requer paciência e será feita passo a passo, no sentido contrário do abismo que se avizinhou em 2020.