Em busca da reestruturação, Ford já havia flertado com a saída do Brasil

Marca vai virar importadora, mas promete total assistência aos proprietários dos carros que estão saindo de linha

Bronco
Como importadora, a Ford venderá no Brasil modelos como o SUV Bronco

A decisão da Ford de por fim à produção de automóveis no país para tornar-se apenas importadora – como publicou GARAGEM – espalhou um gosto amargo para todos os lados: no mercado brasileiro como um todo, que fica sem uma fabricante representativa e uma das pioneiras na indústria nacional; nos proprietários de carros da marca, que agora podem se sentir desprotegidos, por mais que a fabricante prometa dar total assistência no pós-venda; na rede de concessionários e, principalmente, nos funcionários que perderão seus empregos.

Não é a primeira vez que a Ford acena com a possibilidade de dizer adeus ao Brasil na condição da fabricante. No início dos anos 2000, antes do estrondoso sucesso do SUV compacto Ecosport, um “case” que a recolocou no caminho da rentabilidade, a Ford deu um ultimato ao exigente Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo (SP), local da mais tradicional fábrica da empresa, fechada em 2020.

Ou o sindicato parava de ser intransigente em suas exigências ou a Ford simplesmente pegaria seu boné e fecharia suas portas no município do ABC. A entidade que representa os trabalhadores sossegou, estabeleceu-se a trégua e a Ford seguiu em frente por mais duas décadas.

Ocorre que, desde 2013, a Ford América do Sul vem acumulado perdas, conforme comunicado confidencial que Lyle Watters, presidente da Ford América do Sul, enviou para as concessionárias e que GARAGEM obteve com exclusividade.

“A matriz tem auxiliado nossas necessidades de caixa, o que não é mais sustentável. A recente desvalorização das moedas na região aumentou os custos industriais além de níveis recuperáveis e a pandemia global ampliou os desafios, gerando uma capacidade ociosa ainda maior, com redução nas vendas de veículos na América do Sul, especialmente no Brasil”, diz o ofício.

Tatuí
Ford garante que vai manter o campo de provas de Tatuí. O tempo dirá

O futuro do campo de provas de Tatuí

A Ford venderá no Brasil automóveis importados – Ranger, Transit, Bronco e Mustang Mach 1 – e garante que preservará o Centro de Desenvolvimento de Produto na Bahia e o Campo de Provas de Tatuí (SP), a fim de desenvolver tecnologias e produtos para a América do Sul e outros mercados globais.

Dois anos atrás, porém, muito se falou que as instalações de Tatuí estariam à venda por conta da subutilização e dos gastos necessários com a manutenção. Difícil acreditar que a Ford vai manter Tatuí apenas com as operações relativas aos carros da marca. A terceirização é uma hipótese.

O comunicado também contém um “guia prático” com 10 perguntas e respostas para dar suporte na comunicação do time das concessionárias. Ele traz questionamentos que certamente passarão pela cabeça do consumidor. Um deles é: Comprei um veículo da Ford recentemente. Vou ficar sem assistência técnica e garantia? A resposta recomendada: fique tranquilo. A Ford estará ativamente presente no Brasil com sua rede de concessionários e continuará oferecendo assistência total ao consumidor com operações de vendas, serviços, peças de reposição e garantia.

Outra pergunta: Meu carro pode desvalorizar porque a Ford está encerrando sua produção? Posso requerer meu dinheiro de volta?

Resposta: Como qualquer outro produto, com o passar do tempo, o valor do carro tem uma tendência natural de desvalorização — condição normal de mercado, válida para todas as marcas.

O que definirá se o carro da Ford perderá ou não valor é o movimento do mercado. Mas é natural que um veículo fora de linha deprecie com mais rapidez a não ser que, futuramente, ele se torne um cult, como aconteceu com a Kombi e o Fusca. Se o comprador não se importa de possuir um modelo descontinuado, então será possível fazer bons negócios na aquisição de Ka e Ecosport, que serão comercializados até o fim dos estoques. É possível que as concessionárias deem bons descontos na venda.

Sempre usando o argumento da reestruturação, a Ford ressalta que continuará presente no Brasil. Sim, é verdade. Agora, como importadora, a marca espera reorganizar seus negócios e retomar o caminho do lucro. Estar nas primeiras posições no ranking de vendas do mercado brasileiro e ser um dos integrantes das “quatro grandes” (ao lado de Volkswagen, General Motors e Fiat) são recordações que ficarão no passado.

Hoje, a Ford quer simplesmente sobreviver no Brasil – mesmo à custa de fechamento de fábricas e empregos perdidos. Que seu papel de importadora tenha o desfecho esperado.