Ford fecha fábricas no Brasil

Montadora norte-americana com mais de um século no País encerra sua produção

O tabuleiro do xadrez automotivo mundial vem assistindo a grandes movimentos que deixam claro que uma nova ordem mundial vem por aí no setor automotivo. Investir em um País é resultado de muito planejamento e estratégia, afinal, quem não quer estar no lugar e na hora certa?

Políticas tributárias e de incentivo desconectadas da realidade são as maiores causadoras destes movimentos. Há praticamente um mês, a Mercedes-Benz anunciou o fechamento de sua planta instalada na cidade de Iracemápolis, interior de São Paulo, alertando o setor automotivo de que algo não estava bem. O fechamento de três unidades da Ford na data de hoje (11/01) causa ainda mais surpresa, mas tem causa diferente.

A fábrica de Iracemápolis da Mercedes colocou 370 empregos em risco, já o anúncio de hoje da Ford, afeta diretamente cerca de 6.000 colaboradores alocados nas plantas de Taubaté (SP), que fabrica motores e transmissões, Camaçari (BA), onde são montados o Ka e o Ecosport e Horizonte (CE), de onde sai o jipe Troller T4. A diferença entre os dois casos é que fábricas como a da Mercedes, assim como as da Jaguar Land Rover em Itatiaia (RJ), Audi em Pinhais (PR) e BMW em Araquari (SC) surgiram na esteira do Programa Inovar Auto, implantado em 2012, e que tinha a nobre missão de gerar empregos no Brasil, aplicando a simples fórmula de aumentar drasticamente os impostos de carros que não tivessem fábrica no Brasil.

Já a Ford começou suas operações no Brasil em 1919 com uma fábrica no bairro paulistano do Ipiranga. O primeiro sinal de alerta foi ligado em 2019, quando a operação de caminhões foi descontinuada no Brasil, causando o decorrente fechamento da planta de São Bernardo do Campo. Com um portfólio diversificado e vários lançamentos programados para o País, o anúncio de hoje pegou todos de surpresa: “A Ford está presente há mais de um século na América do Sul e no Brasil e sabemos que essas são ações muito difíceis, mas necessárias”, disse Jim Farley, presidente e CEO da Ford. “Estamos mudando para um modelo de negócios ágil e enxuto ao encerrar a produção no Brasil, atendendo nossos consumidores com alguns dos produtos mais empolgantes do nosso portfólio global. Vamos também acelerar a disponibilidade dos benefícios trazidos pela conectividade, eletrificação e tecnologias autônomas, suprindo a necessidade de veículos ambientalmente mais eficientes e seguros no futuro.”

Jim Farley, presidente e CEO da Ford

Os modelos que serão lançados por aqui virão da Argentina, Uruguai e outros mercados. A Ford atenderá a região com seu portfólio global de produtos, incluindo alguns dos veículos mais conhecidos da marca, como a nova picape Ranger produzida na Argentina, a nova Transit, o Bronco, o Mustang Mach 1, e planeja acelerar o lançamento de diversos novos modelos conectados e eletrificados. A montadora manterá assistência total ao consumidor com operações de vendas, serviços, peças de reposição e garantia para seus clientes no Brasil e na América do Sul. A empresa também manterá o Centro de Desenvolvimento de Produto, na Bahia, o Campo de Provas, em Tatuí (SP), e sua sede regional em São Paulo. Promete também que trabalhará em estreita colaboração com os sindicatos e outros parceiros no desenvolvimento de um plano justo e equilibrado para minimizar os impactos do encerramento da produção.

Este movimento no Brasil deve ter relação também com a ‘joint-venture’ firmada entre a Ford e a Volkswagen em 2019, anunciada como uma “parceria entre as empresas para criação de novos produtos e tecnologias, sem troca de ações entre as companhias”, diferente da fusão entre os grupos PSA e FCA, por exemplo, que gerou a Stellantis, conforme anunciamos recentemente aqui no Caderno Garagem. Na ocasião, o CEO da Volkswagen, Dr. Herbert Diess, e o CEO da Ford, Jim Hackett, confirmaram que as empresas pretendem desenvolver vans comerciais e picapes médias para os mercados globais a partir de 2022. O primeiro produto dentro desta estratégia será uma nova Ranger, que ganhará sua versão da VW, seguida de um sistema de interação entre vários de seus veículos. Como se vê, este jogo de xadrez não é para amadores.

Lyle Watters, presidente da Ford América do Sul e Grupo de Mercados Internacionais, anunciou os próximos passos: “Trabalharemos intensamente com os sindicatos, nossos funcionários e outros parceiros para desenvolver medidas que ajudem a enfrentar o difícil impacto desse anúncio”, continuou Watters. “Quero enfatizar que estamos comprometidos com a região para o longo prazo e continuaremos a oferecer aos nossos clientes ampla assistência e cobertura de vendas, serviços e garantia. Isso se tornará evidente ao trazermos para o mercado uma linha empolgante e robusta de SUVs, picapes e veículos comerciais conectados e eletrificados, de dentro e fora da região.”

Watters acrescentou que, além da confirmação da produção da nova geração da Ranger, da chegada do Bronco, do Mustang Mach 1 e da Transit, a Ford também planeja anunciar outros modelos totalmente novos, incluindo um veículo híbrido plug-in. “Isso se alia à expansão de serviços conectados e de novas tecnologias autônomas e de eletrificação nos mercados da América do Sul.”

A produção será encerrada imediatamente em Camaçari e Taubaté, mantendo-se apenas a fabricação de peças por alguns meses para garantir disponibilidade dos estoques de pós-venda. A fábrica da Troller, no Ceará, continuará operando até o quarto trimestre de 2021. Como resultado, a Ford encerrará as vendas do EcoSport, Ka e T4 assim que terminarem os estoques. As operações de manufatura na Argentina e no Uruguai e as organizações de vendas em outros mercados da América do Sul não serão impactadas.

Em decorrência desse anúncio, a Ford prevê um impacto de aproximadamente US$ 4,1 bilhões em despesas não recorrentes, incluindo cerca de US$ 2,5 bilhões em 2020 e US$ 1,6 bilhão em 2021. Aproximadamente US$ 1,6 bilhão será relacionado ao impacto contábil atribuído à baixa de créditos fiscais, depreciação acelerada e amortização de ativos fixos. Os valores remanescentes de aproximadamente US$ 2,5 bilhões impactarão diretamente o caixa e estão, em sua maioria, relacionados a compensações, rescisões, acordos e outros pagamentos.

Como se percebe, o mundo passa por um momento difícil e imprevisível. Se já não bastasse a revolução pela qual passamos, sobre como nos locomoveremos em breve, a pandemia veio para colocar economias e países do avesso. A Ford já errou muito, apostou alto na compra de marcas como Jaguar, Land Rover, Aston Martin, Volvo e até a Mazda, vendendo-as a preço de banana à primeira oscilação. Todas são altamente lucrativas nas mãos de terceiros. Torçamos para que a medida extrema tomada hoje seja um acerto, e que a imagem da marca mantenha a confiança do consumidor por aqui, o que não vai ser fácil.