Caoa entra para a história da indústria automotiva brasileira

Morto aos 77 anos, Carlos Alberto de Oliveira Andrade soube como ninguém vender automóveis e reerguer marcas que ninguém queria

Dr. Carlos Caoa - Caderno Garagem

O que Renault, Hyundai e Chery têm em comum no Brasil? Com políticas distintas, as três montadoras aparentemente não apresentariam nenhuma semelhança se não fosse por um nome que marcou época na indústria automotiva nacional: Carlos Alberto de Oliveira Andrade. Com problemas de saúde, doutor Carlos, como era chamado, faleceu no sábado (14), aos 77 anos.

Médico de formação, Carlos Alberto construiu um império chamado Caoa (iniciais de seu nome) e consagrou-se como um dos maiores negociantes de automóveis do país. Trouxe a Renault para o Brasil – depois entregou a operação aos franceses em meio a um imbróglio jurídico –, transformou os carros da Hyundai em sinônimo de qualidade, em uma época em que as pessoas fugiam de carros coreanos.

Nos últimos anos, cuidava da marca Chery – no crucial momento em que a fabricante chinesa capengava por aqui. Em mais uma tacada de empreendedorismo e visão afiada, assumiu a Chery no Brasil, deu um “up” no seu portfólio e lançou SUVs e o sedã Arrizo 5, inclusive na versão elétrica. Aí está o ponto em comum de Renault, Hyundai e Chery. A trajetória das três no mercado brasileiro pode ser definida em antes de Caoa e depois de Caoa.

Falava-se muito dos métodos nada ortodoxos de Caoa para fazer negócios. Verdade ou mentira, ele montou uma empresa sólida, permeada por algumas críticas e escândalos. O tino para os negócios existiu desde sempre. Nos anos 1970, o doutor comprou um Ford Landau em Campina Grande (PB), cidade onde nasceu.

Antes de receber o modelo de luxo, a concessionária faliu e, em vez de apelar na Justiça, Carlos Alberto tomou uma decisão diferente. Comprou a loja – com o devido valor do Landau abatido – e iniciou sua caminhada de maior revendedor da história da Ford, que recentemente deixou de fabricar no país.

A ousadia sempre estava ã frente das atitudes de Caoa. Como representante da Hyundai, construiu uma fábrica em Anápolis (GO), vislumbrando o potencial da marca no Brasil. Anos depois, a Hyundai se estabeleceu por aqui oficialmente, mas não se atreveu a dispensá-lo dizendo simplesmente “obrigado pelos serviços prestados”. Caoa seguiu representando a marca, muito provavelmente porque os coreanos perceberam que ele seria um problema indigesto de resolver e que um rompimento custaria bons milhões de dólares.

Embora ainda tivesse um pé na Hyundai, Caoa prospectou novas alternativas de estender suas garras e ganhar dinheiro e poder. Numa tacada de mestre, assumiu o controle da Chery em 2017 e rebatizou a empresa de Caoa Chery. De uma marca praticamente falida, a Chery vem ganhando corpo e seus produtos já impõem respeito no mercado.

Caoa também tentou trazer para cá a chinesa Great Wall (que está prestes a chegar em operação própria) e quase comprou o terreno da fábrica da Ford de São Bernardo do Campo (SP). Agressivo nos negócios, tornou-se um portentoso anunciante das mídias impressas, eletrônicas e digitais, com uma enxurrada de campanhas sobre os automóveis da Hyundai e da Chery.

Goste-se ou não de Carlos Alberto de Oliveira Andrade, será impossível dissociar seu nome da evolução da indústria automotiva brasileira. A seu estilo, Caoa abriu caminhos, soube como divulgar e vender automóveis e enriqueceu. A nomenclatura “doutor”, quando alguém se dirigia a ele, deixou de ser usada para identificá-lo como médico. Era utilizado, nas últimas décadas, como reverência a um executivo que escreveu uma rica biografia de empresário bem sucedido.