A desumana decisão da Ford de acabar com a Troller

Marca muda de ideia, não aceita vender a famosa fabricante do jipe T4 e deixa quase 500 pessoas desempregadas

Troller - Caderno Garagem

Vivemos tempos em que muitas vezes as pessoas não se importam com o próximo. Só pensam no bem-estar e interesses próprios sem levar em consideração quem está ao lado ou se uma determinada decisão vai mexer com a vida de centenas de famílias, pais, mães, crianças. No selvagem mundo empresarial, infelizmente, isso ainda é comum.

O recente anúncio da Ford de “matar” a Troller é uma demonstração do egoísmo enraizado nas instituições. Sob o espúrio argumento de que “negócios são negócios”, dane-se se o prato de outras pessoas ficará vazio e se os boletos baterão à porta. Quando definiu que deixaria de produzir no Brasil, a montadora assumiu o compromisso de seguir fabricando o jipe Troller, em Horizonte (CE), até o meio do ano.

Enquanto isso, surgiram empresários interessados. É bom ressaltar que, quando se fala Troller, todo o pacote está incluído: nome, instalações, maquinário, componentes e tecnologia. A Ford alimentou esse interesse até que veio o golpe. Ela não negociaria a marca Troller, tampouco os projetos e as peças. O eventual comprador ficaria apenas com o espaço físico da fábrica e os equipamentos.

Ok, um empresário até poderia assumir a operação e alterar o nome, por exemplo, para “Traller”. Mas não é tão simples. O modelo T4 é um veículo consolidado há muitos anos. Tem uma tribo fiel que se reúne nos fins de semana para explorar as trilhas brasileiras. Como começar do zero, sem o fornecimento de motores, peças e com o projeto trancado a sete chaves? Resumir a negociação à compra das instalações de Horizonte não faz sentido.

Troller - Caderno Garagem

A Ford foi mesquinha. Mais que isso: foi desumana. Porque com a decisão de não repassar componentes para um possível herdeiro ela fecha quase 500 postos de trabalho, acaba com o sustento de centenas de pessoas da noite para o dia e tira de circulação um jipe que tem espaço cativo no mercado.

Na cabeça da Ford, ela estaria dando munição aos inimigos. Não quer que o motor da picape Ranger equipe outros veículos e também não deseja ver o recém-lançado Bronco ameaçado por esse tipo de concorrência.

Ao absorver a Troller, a Ford refestelou-se de uma série de benefícios fiscais no país. Chupou a laranja até virar bagaço e depois jogou fora. Agora, vira as costas para quem a ajudou e deixa os funcionários com o pires na mão. Mundo cão do empresariado.  

 

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